sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

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Fico a ruminar sonhos enquanto cá estou e três coisas me queimam o juízo:

1- Não lembro, com certeza não lembro,  do rosto de Claudia Cardinale;

2- Não lembro, sequer reconheço, de sua voz;
3- Não sei falar em italiano;

Certamente mal posso ter certeza se sonhei com Cardinale, ela era quem sabe apenas a idéia, alma que movimenta a infinidade de corpos que no sonho se desenhavam diante de mim. quanto ao italiano, indagarei a um colega, ele me dirá se o italiano que Claudia balbuciou era mesmo italiano.


Muitos  que julguei ter amado já não correspondem ao objeto do presente, são outras existências, congeladas, indiferentes ao espaço tempo. as mulheres que amei já não são estas que encontro vez ou outra?


É verdade, elas não existem mais neste espaço físico do toque, estão desaparecidas, sumidas, inexistentes em carne e osso. o espírito do que eram já não repousa na superfície.


As mulheres que amei foram ideias que tive e que ainda amo em lembranças matutinas, pois ainda resistem; habitam meu apertado universo.


A Claudia Cardinale do meu sonho não tinha um rosto definido.


Então, partindo dessa ideia, eu poderia amar sem medo a Fernanda do jeito que Fernanda se mostra a mim. Ela está me oferecendo a sua existência agora? 


"Ame a existência do objeto mais que ao próprio objeto".



Lá fora está tão quente.


Aqui na sala está tão agradavelmente frio.


Tenho o resto do dia para pensar nessas coisas. Talvez, no final da tarde eu pegue a 125 e vá dar uma olhada no rio. Gosto de ver as garças demonstrando sua esperança natural diante da casa das onze janelas, pousadas na corda que prende ao cais a velha fragata de guerra.


Antes disso, agir como um cidadão comum, entre os ruídos de um ponto eletrônico que diz que aquelas horas do dia já não te pertencem, foram compradas, trocadas por dinheiro.


Quanto custa tuas horas do dia?


Quantas horas dos dias do seu passado você trocou pra valorizar estas horas que você vende como uma puta?


Sua puta.


É isso que sou, uma puta.


Mas qual mal? Somos todos pequenas putas de deus.


Cardinale, por favor, liberte o meu juízo!


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