domingo, 31 de maio de 2026



O CRIADOR DE MUNDOS E A COLOMBINA


Obrigado, por me deixar fruir sua gratidão a mim. Viu que coisa mais estranha? Gratidão por gratidão. Fostes no escuro, onde eu estava, me tomaste pelas mãos, como um menino tolo, eu um homem velho... e levaste-me pra luz, onde todos que estavam ali podiam me ver. E eu não me senti sozinho, não senti nenhuma culpa por abandono algum, nem os que cometi, nem os que cometeram comigo.

 

Caminhei firme defronte de um um mundo que criei e ali diante de mim havia um mar de rostos e com um gesto eu os disse: Vê-de, eu crio mundos e os ofereço a vós, não porque careçais de tais mundos que julgo por minha presunção em demasia belos e pueris. Eu os crio por sobrevivência, suponho.  Ofereço-vos o vislumbre de minha sobrevivência momentaneamente, absolutamente feliz. São vossos. Tomai-os para si. Não são mais somente meus

 

É só papel, tinta cola e madeira. Dor nos ossos, insônia, cansaço e mil perguntas irrespondidas. Mas é a minha vida. É o que vim fazer aqui neste respiro de tempo dentro do qual respiro. Eu sei que é breve e cândido, indominável, desnecessário. Tudo poderia existir sem que mente alguma soubesse que tudo existe. Mas se tudo existe e eu sei que sim, este momento aqui é tudo que basta. Nele cabe tudo o que basta. E pra dentro dele, você me trouxe pelas mãos como um guia que sabe de respostas mileniais.

 

Entre os olhos na multidão estão os olhos dela e entre os aplausos ouço suas mãos aplaudindo e todos os aplausos cabem nessas duas pequenas mãos que outrora ou noutros lugares me afagam, pra me impedir de desistências, que sempre me tentam. Eu que sou o senhor dos mundos inacabados, jogados, ermos, pelos cantos da casa onde moro.

 

Ela me vê também. eu sei que me vê aqui na luz e sabe que essa graça me cabe agora e não há pouco ou depois. Agora!


Eu não estou aqui neste palco. Sou o morador cativo dos sonhos da colombina, que pelas mãos, como quem guia com cuidado um homem velho e cego até a luz me trouxe... e quando soltou  a minha mão eu não estava mais só. Eu era uma multidão.

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