FRANCESCA WOODMAN
Nunca imaginei um dia vê-la vulnerável. Ouvi sua voz soar alto vinda do teatrinho. Assustei-me. Um tipo de lamento por estar só, que ecoou pelo atelier. Chegando lá, estava no no centro da sala, pupilas dilatadas, sentada sobre uma folha muito comprida de papel pardo. Aproximei-me devagar para não assustá-la, seu rosto apontava para o vazio, o vazio silencioso de sua surdez, o vazio escuro de sua cegueira. Ao sentir meu cheiro soltou um grunhido. Sabia que eu estava bem perto, ao tato. Encostei a mão direita com cuidado em seu pescoço, Deu um leve sobressalto e em seguida acarinhou minha mão, ronronando.
No colo, eu a carreguei até o quarto. Por costume e sensibilidade ela encontrou a cama e nela se deitou, aliviada.
Você ainda me ama, Francesca Woodman?
Como ela poderia responder a isso? Felina ainda sim, entretanto envelhecida e sem a mesma certeza de si ou de mim ao seu redor. Vou ficar aqui, prometi. Vou ficar aqui até o fim, do seu lado, Francesca Woodman. Sua presença viva me lembra minha menina quando ainda era um jovenzinha, tímida e risonha. A sua idade, Francesca, por um tempo foi a idade de uma profunda saudade.
Tenho algumas marcas profundas das vezes que você me feriu, mas nenhum desses ferimentos demorou a cicatrizar ou inflamou seriamente antes que eu lhe perdoasse. Você era tão selvagem eu era o tolo dessa sua novela, que vez ou outra merecia sua fúria.
Não gosto dessa melancolia que se tornaram seus aparentes últimos dias de vida.
Amo você, Francesca Woodman.
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