segunda-feira, 25 de março de 2024

A PERFEIÇÃO E O IMPOSSÍVEL 9

 PERFAZER LEVA À PERFEIÇÃO


Posso criar vários bons ditos aqui, vários axiomas particulares, aqui que é o meu reino, o reino onde minhas idéias correm livres. Por exemplo: posso dizer que uma criança humana é a mistura perfeita e indefinível do mais profundo medo com a mais livre coragem. É por isso que crianças humanas acabam nos surpreendendo com seus feitos maravilhosos e assim, passamos a chamá-las de milagres, ou messias, ou gênios, ou Johannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart. Mas aqui eu digo com toda convicção, crianças são apenas crianças e seus feitos não são extraordinários. São sim criaturas livres para usar a imaginação e isso faz com que elas pareçam prodígios aos nossos olhos desatentos, nós há muito castrados de nossos impulsos naturais criativos. Essas prodigiosidades à partir da adolescência, comumente passam a  não não mais ocorrer de um modo tão furioso.  A sociedade humana é muito eficiente em desconstruir a tendência à perfeição que a criança traz consigo. Nosso desejo por sexo e poder, ofusca nossa capacidade imaginativa ou simplesmente a objetifica. Destruímos a pureza da ilimitada inventividade infantil, quase sempre ajustada ao cosmos, apenas pela manutenção da nossa doutrina de poder e sexo sobre a superfície de nosso mero mundanismo. O cerne das sociedades é controlar esse ímpeto criativo, direcioná-lo a interesses nacionais. Entre esses interesses habita o da diversão, mas vou falar disso depois.

Vou chamar aos que são oportunamente dedicados ao estudo operário da música como MÚSICOS. Essas criaturas são responsáveis por disseminar o evangelho da música a todos aqueles a quem pretendem converter. Como bons religiosos que são, criam ritos que nunca devem ser questionados, elencam seres humanos do passado e os alçam ao patamar divino e inalcansável, chamam-nos de prodígios, gênios, axiomas. E assim transformam segundo seus desígnios o significado profundo da palavra perfeição. Suponho que perdida nesse turbilhão vai também a música, uma das artes vítimas dessa doce vilania, destituída completamente de seu sentido ancestral.


É preciso entender que a cada ser humano cabe um tipo específico de perfeição. É isso baby, a perfeição não é um deus único. Tanto quanto deuses sobre a terra, tanto quanto religiões sobre a terra, é múltipla a perfeição. Portanto a perfeição de Mozart não pode ser medida à perfeição do Juca de Oriximiná, que tece paneiros de nvira como ninguém.  Por que? O motivo é simples: perfeição é a superação do feito, da feição. E isso se consegue extrapolando o feito extraordinário, tornando-o ordinário. E isso só se consegue, sendo humano, com a praxis. E não há quem não conheça o sábio dito popular que diz: A prática leva a ...  

Perfeição tem relação com refazer ad infinitum. A refazenda, como diria Gilberto Gil. É tua quantidade de refazendas que aos poucos vai tornando a tua perfeição algo ordinário. Notem que estou usando um pronome possessivo antes da palavra perfeição, afinal nesse meu universo, cada indivíduo possui sua própria idéia de perfeição. Quando a minha idéia de perfeição encontra com a tua idéia de perfeição, e assim elas se interrelacionam,  um de nós vai gritar: Bravo!!!

No ensino contemporâneo da arte do violino há uma tendência à robotização, ou, pra melhorar o termo: há uma coreografação da atitude de tocar violino. O resultado musical é o mero resultado da educação de um corpo através de uma coreografia rígida. Não é à toa que muitos professores de violino observam e corrigem muito mais a postura do aluno, que a sua produção de sons. É claro que essa atitude é justificável, porque é se corrigindo a postura e retraindo quase a zero os vícios do corpo do violinista, um corpo que deve ser bem estruturado e confortável em sua postura, que se vai poder aceitar a coreografia e transformá-la numa estrutura invisível e na produção de um som aceitável.

Entretanto, com o passar do tempo, essas centenas de anos na arte violinística, é bem provável que o ensino dessa coreografia tenha se tornado vazio por se converter ao algo mais importante. E nesse pesado vazio estruturante, a música profunda, aquela oriunda dos mais sagrada espiritualidade humana se perde, como água derramada sobre uma areia grossa. E no final a estrutura se torna a parte mais aparente durante a execução musical, como um quadro na parede onde a dedicação e vaidade do emoldurador se tornou mais jubilosa que a do pobre coitado pintor.

sexta-feira, 22 de março de 2024

A PERFEIÇÃO E O IMPOSSÍVEL 8

 A ZONA DE ESTRANHAMENTO 2

Vou tentar aqui ordenar as camadas de minha percepção quando sou colocado diante de uma partitura.

Vou tentar esmiuçar de início em sete tópicos o que vou chamar aqui de primeira camada:


1-Tenho meu primeiro contato visual com a música escrita. Uma partitura se apresenta a mim como um texto escrito em caracteres Devanagari.   O Devanagari é o alfabeto abugida com o qual se escreve as línguas da Índia e do Nepal.  Ora, é bem claro que tenho a pleno funcionamento o meu aparelho fonador, com ele sou capaz de produzir e emitir os mais variados sons que um ser humano normalmente emite para se comunicar. Entretanto, colocado diante dos escritos devanagáris, eu me calo, porque simplesmente não compreendo nem domino a lógica sonora que aqueles caracteres encerram.


2-Meus olhos percorrem o papel tentando coletar padrões compreensíveis. Um bom professor me indagaria na minha língua materna: Mas se você já fala fluentemente sua língua, se consegue dominar todos os padrões fonéticos, fonológicos e semânticos dela, qual a razão para dominar esta linguagem escrita dessa língua estrangeira específica? E você já a fala com certa fluidez. Qual o sentido dessa busca?  Eu responderia ao mestre com certa paciência e não muito certo da eficiência de minha resposta: Eu o faço simplesmente porque quero.

Já com o violino e a escrita musical que o tangencia, os tópicos são auto explicativos:

3-Começo a fazer uma leitura incipiente de rítmo. Utilizando o pouco conhecimento que tenho dessa técnica de leitura.

4-começo a localizar as notas musicais e relaciono isso mentalmente com o instrumento. A percepção visual  em um átmo tenta se transformar em cinética muscular. Assim eu tento digitar as notas no espelho cego do violino.

5-começo a juntar a atitude física da execução musical à leitura. É o entendimento que ali se escreve uma coreografia.

6-Ouço pela primeira vez de modo parvo o que a partitura em certo aspecto propõe

7-tento juntar todas essas ações, executando-as ao mesmo tempo. Falho miseravelmente. Meu corpo precisa ser lapidado, porque devo ler com todo o meu corpo.

terça-feira, 12 de março de 2024

A PERFEIÇÃO E O IMPOSSÍVEL 7

 A ZONA DE ESTRANHAMENTO - parte 1


Observemos a imagem abaixo:


Trata-se de um trecho da Sinfonia No4, catalogada como K19, de Mozart. A imagem não mostra os legatos, nem outra qualquer anotação de articulação, porque o que interessa aqui é a  primeira impressão que se tem quando se enxerga essa imagem. Posteriormente vou voltar a esse tema com mais minúcias. Por agora, deixemos as minúcias de lado e o cuidado com o método, para que eu possa discorrer livremente a respeito do tema, de acordo com minhas intuições.

A primeira reação está relacionada à perda do controle e das próprias vontades, criando assim um vale, uma zona planificada de estranhamentro. Ler significa decodificar em sons audíveis e modulados por regras o que está exposto aos olhos em forma de signos fechados (um conceito elaborado por mim, mas depois vou atrás de referências e conceitos mais sólidos). Está relacionada também à decisão de realizar a tarefa de decodificar o que está escrito, algo que trafega entre necessidade simples e auto desafio também simples. Como violiniilista, meu plano seria decodificar com auxílio do meu instrumento o que meus olhos vêem. Mas essa tarefa se dá com total desprendimento, por conta de uma também total descolagem da tradição violinística.

Notem que no parágrafo anterior referi-me a mim mesmo como violiniilista. Eu inventei essa porra. Tá na cara que é a junção entre as palavras violinista e niilista. Se você não sabe o que significa niilista, nem sei o que faz lendo meus textos. Mas ainda assim vou copiar e colar o que achei na internet sobre esse termo muito usado na filosofia contemporânea. Niilismo caracteriza-se pela rejeição de valores tradicionais, ceticismo em relação à verdade absoluta e descrença no propósito da vida. Bem, se isto aqui fosse um artigo científico, eu teria que dizer de onde tirei esse conceito. Mas isso aqui não é um artigo científico, são só coisas que eu estou a fim de escrever e isso é o que me basta.


Voltemos, então:



Até então a minha relação com o instrumento, com o seu soar, tratava-se de um manuseio livre, com o propósito de dar uma abrangência maior às capacidades de meu corpo emitir sons ou ruídos. O mesmo acontece com a fala, com nosso aparelho fonador. não sei o que acontecia comigo, com minha consciência, enquanto estive por alguns meses mergulhado no líquido amniótico dentro da barriga de Dona Noca, minha mãe. Mas sei que a partir do momento em que tive o primeiro contato com o ar da atmosfera terrestre, eu gritei como um louco. Aquela foi a primeira vez que eu ouvi meu próprio som. Não sei se me assustei com isso. Como eu me assustaria se nem mesmo o conceito de susto passava por minha cabeça. Eu nem era eu antes daquele grito. Taí uma coisa boa e poética de se pensar: A partir do momento que gritamos logo após sermos expulsos de nossa era líquida, começa a construção sonora de nossa personalidade.

Caramba. Gostei disso. Vou parar por aqui pra pensar um pouco. Preciso estudar o humilhante concerto No4. Mas depois disso retornamos à investigação a respeito da zona de estranhamento.