terça-feira, 8 de março de 2022

Se eu ouvisse uma música agora

Se eu pudesse ouvir aquela música agora, faria dela a minha casa, pois houve um tempo que ela soou embora eu não a tenha  ouvido, pois a mim pareciam ruídos que me travessavam como atravessam os serrotes a uma árvore centenária.


Tive essa fortuna em vida de conhecer a música em alguém. A fortuna de lhe ver, sentir, tocar, amar e ouvir premente e fisicamente na existência de alguém.


Quando é assim nada precisa ressoar porque a música é cósmica, silenciosa e infinita.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

omundo

há o mundo lá fora quando eu estou lá fora.

Sem mim, sem mundo. E cá estão ao meu redor todos mergulhados noutras línguas e cá estou sem mundo, porque aqui estou sem mim.


Devo ter deixado uma grande parte minha naquele largo, sentado em escadas de lioz. Naqueles dias em que as melodias brotavam sem que eu as quisesse colher ou sequer lhes dizer minhas. Não há apego a canções em um coração tranquilo. Só na saudade, na dor e no irremediável as canções são tão necessárias. Na felicidade os ouvidos ouvem o mundo, nada é colhido, o jardim é intocado.

há um mundo em mim quando estou em mim.


comigo, habita o mundo.


sábado, 17 de julho de 2021

O BOSQUE DE OUTRORA

 Hoje voltei ao bosque, aquele de outrora. Os lugares por onde passamos com nossas felicidades repentinas, tornam-se  um refúgio nos dias tristes.


Fiquei quieto, ouvindo. Do meio daqueles sonidos, brotávamos. Eu imaginando meu coração seguro. Eu no meio de minha grata imaginação, imaginava meu coração seguro.


Quando foi que morri? Esse outro daqueles dias, que bailava vivo nesses sonhos juvenis.


Guardo a imagem de árvores gêmeas, que juntas, protegidas no ermo da floresta, com seus caules milenares se abraçam e se abraçarão pra sempre.