quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

CARTAS PARA LUNA 4

 Preciso lhe contar uma história.

Pra alcançar o ambiente imaginário fui num streaming e escolhi utopia da Bjork, para ouvir enquanto escrevo. Mas acerca do tempo que vou tentar lhe descrever nem existia ainda Bjork do jeito que a entendo hoje.

Eu era um outro cara, numa aspecto de perdição em mim muito mais inexplicável, com muito mais espaços vazios e perguntas por responder, muito mais do que tenho hoje em mim, em espaços vazios espalhados como medusas luminescentes num oceano escuro.

Eu era um oceano ainda mais  escuro, no qual,  mergulhado, eu nem podia ter uma ideia dimensional do exato lugar em que eu me encontrava. Eu podia simplificar o veredicto e dizer simplesmente que eu estava perdido. Mas não é bem assim. Quando somos jovens somos afinal muito mais ignorantes do que perdidos. Estar perdido é consequência de nossa profunda e insensata ignorância.


Já contei pra você a história de minha relação com um barco velho que ficava encalhado na praça 13 de julho? Eu o batizara de... como era mesmo o nome? Olha só, esqueci. Ah sim! Seu nome era Santiago. Não vou contar de novo essa história. Apenas a citei pra ilustrar como eu amava a avenida 13 de julho, ladeada pelo Rio Poxim, com aquele mangue longilíneo, pontuado por recantos de margens tão simpáticos e pueris.  Eu gostava de ficar nesses lugares, conversando com pescadores, homens e mulheres simples, que deixavam por ali suas belas canoas de pesca encalhados. Na maioria dessas oportunidades eu me encontrava sozinho e, tem uma coisa que eu gostava muito em Aracaju: naquele tempo essa cidade sabia como deixar uma pessoa em paz. Eu me sentava ali naquelas beiradas, num calor ressecante dos primeiros meses do verão e ficava escrevendo poemas, desenhando... ou apenas pensando bobagens.


Mas isso não era uma coisa extremamente santificada. Eu, como já disse, era matuto e cheio de vaidade. E uma das faces de minha vaidade se mostrava como pena de mim mesmo.  Era como se eu tivesse idéia absoluta do meu tamanho e esse tamanho era coisa que diminuía. E diminuir-me, naquele tempo era demais pra um garoto de 19 anos.


Vivi muitas experiências em Aracaju, todas que você possa imaginar, ou que pelo menos você possa supor que um jovem do final do século 20 poderia  e deveria viver. Mas embora todas essas aventuras, o meu lugar predileto daquela cidade eram essas margens ermas, tranquilas e escondidas, onde eu me ouvia e percebia que por dentro eu me desfazia.


Havia uma vazio.

E havia um temporal. Um temporal de vazio.

Era assim que eu me sentia.













quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

CARTAS PARA LUNA 3

Não foi de uma hora pra outra que decidi que a queria ao meu lado pra sempre. Fiz uma promessa e eu levo bem a sério as promessas.

Assim, quando tudo começou eu sabia que seria pra sempre. Quando vivemos o que tinhamos de viver, eu ainda sabia, seria pra sempre. Quando ela foi embora ainda era pra sempre. Na minha solidão ainda era pra sempre.

Ainda é pra sempre. Aquilo que dizem sobre o amor verdadeiro?

sim,  é verdade.

O que não é pra sempre é o modo.

O modo muda.

O modo e nada mais.

domingo, 15 de dezembro de 2019

CARTS PARA LUNA 2


Pois talvez os homens tenham essa cegueira indissolúvel para muitas coisas. Embora mantenham os olhos atentos à beleza, à carne, às formas, aos cheiros. 

Aos vinte anos o mundo bem que poderia ruir ao redor do jovem enquanto ele mantém os olhos estáticos às suas paixões. Fico com essa suspeita que diz que o que mantém o mundo humano de pé são as paixões juvenis. Sem elas a vida seria um estorvo e nem os ocasos seriam bonitos e nem as estrelas e nem a cor do mar de todas as Pajuçaras espalhadas pelo mundo.

Eu, que nasci às margens de um rio amazônico aos poucos ia perdendo meu acento nortista. tornava-me praiano, a cada dia mais pisante de areia. Da casa onde morava à beira do mar eram alguns passos. E tinha aquele cheiro que só Aracaju tem. Era o final dos anos oitenta, tantas coisas rondando o planeta. Em Seattle nascia o grunge, o muro de Berlim ruía junto com toda a cortina de ferro, morria Luiz Gonzaga.

Conheci amigos surfistas e estive ao lado, como nunca estive de  uma cultura negra da qual eu só ouvira falar de tempos em tempos, de fevereiros em fevereiros. É claro que me enchi de tolices e manias falseadas. Era o momento de construção de minha cara social, a parede levantada pedra por pedra do que eu seria diante das pessoas.

Mas na solitude eu era o mesmo que ainda sou. Não me encaixava. Eu era um estrangeiro longe de minha raiz, e minha cultura e isso me fazia bem triste. Além do mais sentia uma saudade dolorida demais da Vânia, a namoradinha que deixei, que pra mim tinha os olhos verdes e cabelos lisos e negros. Ela era a minha paixão e tudo o que eu fazia era para tê-la de novo ao meu lado. Imagine só, eu aos vinte anos fazendo planos como um homenzinho. Nem emprego eu tinha, nem uma formação (seja lá o que isso queria dizer pra mim). Mas todas as noites eu colocava a cabeça no travesseiro e  fazia planos com Vânia.

Com o passar do tempo a fisionomia da menina de olhos verdes começou a desaparecer de meu juízo. Ficava só a cor dos olhos e o sorriso travesso. Depois de um ano e meio longe de casa, voltei e  a primeira coisa que fiz foi visitar Vânia. Ah, eu era só felicidade. Os caras de uma gangue rival também não haviam esquecido de mim e me deram uma surra. Minha cidade da infância parecia não me querer mais. Quando voltei dessa viagem, com o o rosto inchado da surra, um pouco tempo depois, dei-me conta que lá no íntimo aquilo foi o início de uma transformação. Era você que começava a surgir em minha vida, porque naqueles dias o meu coração começava a aceitar aquela que lhe carregaria no ventre...

Pois talvez nem todos os homens tenham essa cegueira rudimentar. Talvez nem todos sejam essa imbecilidade grotesca. Havia muito mistério naquele início e o primeiro beijo demorou  muito mais que um ciclo lunar.

Você começava a nascer ali. Eu nem sabia disso. Só agora sei.