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Naqueles dias eu estava bem mais velho do que agora estou
naqueles dias eu não buscava a juventude.
Naqueles dias, pra me encontrar eu me escondi no lugar mais escuro da cidade. Naquele lugar morava um universo mágico, que se projetava em panos e se firmava num grande assoalho de madeira.
O lugar tanto me protegeu quanto me feriu. Como um marujo que nunca abandona o convés eu queria me tornar parte daquela nau, viajar com ela em todas as viagens que ela iniciava e terminava dia após dia.
Hoje ainda estou num outro porto, mas ainda assim num porto. Ainda não fiz a grande viagem, ainda me falta o vento certo e as velas recosturadas. Mas amanhã cedo estará tudo pronto e eu partirei.
O que há além dia claro, meu bem?
O que há bem depois dessa orquestra, bem depois dessas galerias?
Amanhã vou fazer o que não fiz.
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domingo, 10 de fevereiro de 2019
terça-feira, 4 de abril de 2017
As peças em reencontro 13
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Foi depois de muito tempo. Eu percebi que Serafin, o primeiro dos títeres que criei podia dobrar os joelhos e flutuar. Sim... eu vivera muitas coisas, tinha 41 anos, um coração remendado mil vezes. Mas aquilo me fez entender quase tudo o que vivi.
O sonho estava lá, ao toque de minhas mãos. Dobre os joelhos, seja ainda menor...
Eu começava desde ali a me desvencilhar dos enigmas. Eles estavam agarrados a tudo o que eu escrevera, a tudo o que desenhara. Minhas palavras foram por tanto tempo tão incompreensíveis e eu não conseguia dizê-las sem machucar alguém que morava dentro de mim.
Mas os títeres nasceram desde tudo isso, preenchidos com sua alma de pura salvação. Um espelho do que somos, ou sonhamos ser.
Ninguém pode esperar de mim a perfeição. Ninguém poderia me amar e ter ao certo a idéia de que eu nunca me mostraria causador de algo ruim. Sempre fui desde que nasci uma porta para a dor de alguém, para seus sorrisos festivos, para seu amor. Mas nunca fui uma porta de total bondade.
Quando Serafin andou pela primeira vez entre as pessoas, uma criança se aproximou dele e sorriu, dançou e me pareceu não se importar em se deixar às emoções de algo tão ilógico. Percebi que a criança só sentia. e o sentir dela me era a lição que me faltara na longa pequena vida que eu tivera até então.
Vou me dedicar a sentir muito mais que a entender. Meu voto inconsciente, um jurar solene e íntimo. E no dia em que eu sentir algo que me transforme tanto, eu saberei como não agir... como errar para ver. O universo se manifestará, eu direi o que direi... e só a leve suspeita disso me transformará e vai doer muito mais que um golpe na carne. Vou sentir como se arrancassem meus fios e vou, mesmo jogado ao canto, pedir sem movimento algum em mim: faça-me de novo o que sou e serei novamente tudo.
E tudo a que vem, vivo. E a tudo o que me mata, morro.
E assim o tempo some porque já não faz sentido.
E viver esse sem sentido é sentir. É livrar-se do que priva e do que livra.
É apenas viver.
E viver esse sem sentido é sentir. É livrar-se do que priva e do que livra.
É apenas viver.
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quarta-feira, 29 de março de 2017
As Peças em reencontro 12
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Fiquei pensando que aquele passarinho já cantava na pele de outros passarinhos que viveram suas breves vidas no meu tempo de infância. Em meio a toda violência, em meio a toda inocência ele estava lá, na sua samsara, cantarolando para o seu sol alógeno, no seu milésimo renascimento.
Naqueles tempos eu ouvia a voz do sonho. Dobre os joelhos, a voz dizia. Dobre os joelhos e voe! Esse mundo tão inexplicável acabava por me salvar. E meu olhar a cada dia ia ficando mais distante, alcançando distâncias que nunca fui. Eu me retirava das horas mortas e me aquietava num alpendre que construí só pra caber alguém do meu tamanho. Lembro da epidemia de uma doença da várzea que levou alguns de meus amigos. A velha senhora não me permitia sair à rua para distrações fora de hora. Ela temia que o mal me atingisse e me aprisionasse naquela morte terrível e lenta que levou tantas crianças.
O que me restava além do Moodjong eram os livros que chegaram até mim pelo meu pai e irmãos, que ficavam arrumados numa estante que separava a sala de jantar da sala de estar. Mas havia outros que me fascinavam, escritos por velhos sábios de eras muito distantes. Ipan Li costumava me emprestar seus livros em português. Eram livros que pareciam nunca ter sido abertos, que tinham cheiro de tinta de imprensa e armários de cedro...
Eu ficava no meu alpendre mergulhado naquelas palavras... Pacificado, como uma criança sonolenta.
Se as vidas passadas da samsara do passarinho do porto já viviam a cantar nas madrugadas, eu não lhes ouvia o canto. Quem sabe esse meu triste amigo madrigal já estivesse lá enquanto eu sonhava. Não havia melhor lugar no qual poderia estar. Digo isso porque sei que os sonhos são o melhor lugar do coração de uma criança.
Se as vidas passadas da samsara do passarinho do porto já viviam a cantar nas madrugadas, eu não lhes ouvia o canto. Quem sabe esse meu triste amigo madrigal já estivesse lá enquanto eu sonhava. Não havia melhor lugar no qual poderia estar. Digo isso porque sei que os sonhos são o melhor lugar do coração de uma criança.
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