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Sei que parece papo de velho. Fato, estou envelhecendo. Mas algo inominável está se construindo debaixo de nossos pés, ao nosso redor, dentro de nossas casas, dentro de nós. E está tomando conta do mundo. Nunca fui de citar as palavras de cristãos, desde quando deixei de me medir cristão. Mas não consigo pensar em outra coisa que expresse essa sensação sinistra:
'(...) jazes desolada e triste, sumida no abandono. Os que ontem vitoriavam teu nome, hoje jazem no pó, são esquecidos! Todos te deram as costas e entregaram-te nas mãos de teus inimigos. Entoai, nações, um cântico melancólico por aquela que tem deixado de ser a filha do Meu povo! Todo o passado volta a se repetir: a humanidade se move entre alegrias e tristezas, nada é eterno neste mundo passageiro, o que ontem foi, hoje já não existe'.
Que saco essa derrocada das teorias da conspiração. Que saco um mundo sem as utopias de fim de mundo. Há dias em que penso que as orações são para os fracos e covardes, noutros penso que as orações são para os fortes. Hoje, agora, penso que o melhor a fazer é levar meu cachorro para dar uma cagadinha na calçada do vizinho. Nada melhor que usar escatologias contra escatologias.
Todo o rastro de tudo o que é mundano demais se apossou de minha pele e assim, por culpa de me deixar nisso, vi-me doente e febril, vítima de uma tentação calorosa e caluniante.
A sorte é que ela veio me trazer o conforto de uma sombra. Trouxe-me. Somente isso: Trouxe-me.
"Estás enveneneado", ela me dizia. Enveneneado? Não seria envenenado? Eu indagava, ela ria de mim com um rosto amável.
A sorte é que ela me veio trazer o conforto da sombra. E eu lhe disse numa dessas conversas antes de dormir, depois que ela me indagou para quem eu continuava a escrever: "Eu escrevo para criaturas doentes, é minha maldição. Tudo o que eu escrevo é pra essas criaturas. Um dia eu vou me acordar e dar um basta nisso".
Cutuquei pela última vez o mal que me afligiu e vi que o mundo já o tomou para si. O horizonte está limpo.
Milagre que ela tenha me presenteado com o conforto de uma sombra, uns goles de água fria e um olhar doce dentro dos olhos.
Algo inominável está se construindo em mim.
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quinta-feira, 7 de março de 2013
domingo, 24 de fevereiro de 2013
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TERCEIRO MOVIMENTO
AMULETOS
Eu sei que se eu procurasse pela
pequena caixa de bugigangas de minha infância, agora, eu não a encontraria.
Cometi o descuido de não sentir carência dela no vai e vem de minha vida. Eu
nunca colecionei lembranças. Se hoje, eu ainda pudesse adquirir esse hábito, eu guardaria, de verdade,
enroladas em finas folhas de papel, todas as coisas que me lembrassem... que
me... lembrassem... que tipo de milagre se busca ao aprisionar o que somos nas
coisas que modificamos? Quando o mar ficasse
ruim de enfrentar, sozinho, será que ao olhar para esses meus amuletos guardados como tesouro, eu me fortaleceria? Sentiria mais coragem? Como
vou saber?
Eu guardaria um pedaço de papel manilha com um desenho do
seu rosto? teria uma imagem sua em que você estivesse sorrindo no instante exato em que eu
tivesse agarrado sua mão no bailes? Ao
olhar para essa sua imagem com meus sentimentos, sentimentos de uma criatura
mortal, prestes a morrer, eu sorriria? Eu sorriria. Eu teria resistido a qualquer batalha, se tivesse
levado comigo uma coisa que me lembrasse: Horácio, você precisa voltar, a vida
e a ilha são pérolas preciosas, volte com vida para o amor de Melinda. Nas procelas, onde até o sorriso pra florescer
precisava vencer um cansaço absurdo, só
de pensar no que eu tinha deixado a esperar por mim, eu sorriria?
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sábado, 12 de janeiro de 2013
8
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Costuma-se dizer por aqui, nesta
cidade insular, que foi preciso voltarmos a tempos primitivos, de angústia,
carência extrema e revolta, para reaprendermos a sobreviver, para voltarmos a
perceber que num mundo verdadeiramente humano, a dita civilização, com sua
burocracia e consumo sem alma, nada vale, nada garante.
É claro que a ilha se recuperou. Mas
o tempo, depois daquilo tudo, se somado
não chega a muito.
Nasci já num estado de volta a
essa organização com a qual os meus avós se acostumaram. Mas outros, mais perto
de minha condição, continuaram a entender que o modo humano primitivo de
sobreviver também possuía sua dignidade. Cresci entendendo que minha vida,
minha sobrevivência e o meu mundo, dependiam da força dos meus braços para
defender a minha vida; dependiam da minha capacidade de entender o perigo e; da
minha consciência no momento em que a morte me seria o melhor caminho. Tanto a
morte de meu corpo, quanto a minha capacidade de matar alguém. Num mundo assim,
se um homem não for capaz de matar, ele não sobrevive.
“A gente vive e por isso outros morrem”.
Aprendi isso desde cedo, num
tempo em que eu fui um quadrúpede.
Ora, meu caro leitor do futuro,
não pense que falo poeticamente ou em parábolas. Fui um quadrúpede até o ponto
de não suportar mais. Depois de adquirir a capacidade de andar sobre duas
pernas, não pude me conter, eu careci de vinganças, eu cumpri esse doce ritual
até o ponto em que minha alma se mostrou a mim limpa, lavada com sangue.
Se me faltava dizer o motivo para
este relato, agora nada me falta. Esta é simplesmente a história de um
quadrúpede que se transformou em um bípede.
Ainda sem poesia, mas carecendo
de um pouco mais de recursos extravagantes, digo que vim do inferno. Nasci da
mistura de porra e cuspe do próprio mal.
Mas não devo me perder nessa
tentação que é por agora falar de mim.
Em passos lentos vou contando a
minha história.
Em passos lentos enquanto o fim
da vida, moribunda, não me vem.
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