domingo, 24 de fevereiro de 2013

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TERCEIRO MOVIMENTO

AMULETOS

Eu sei que se eu procurasse pela pequena caixa de bugigangas de minha infância, agora, eu não a encontraria. Cometi o descuido de não sentir carência dela no vai e vem de minha vida. Eu nunca colecionei lembranças. Se hoje, eu ainda pudesse adquirir  esse hábito, eu guardaria, de verdade, enroladas em finas folhas de papel, todas as coisas que me lembrassem... que me... lembrassem... que tipo de milagre se busca ao aprisionar o que somos nas coisas que modificamos? Quando o mar ficasse  ruim de enfrentar, sozinho, será que ao olhar para  esses  meus amuletos guardados como tesouro,  eu me fortaleceria? Sentiria mais coragem? Como vou saber?

Eu guardaria um pedaço de papel manilha com um desenho do seu rosto? teria uma imagem sua em que você  estivesse sorrindo no instante exato em que eu  tivesse agarrado sua mão no bailes? Ao olhar para essa sua imagem com meus sentimentos, sentimentos de uma criatura mortal, prestes a morrer, eu sorriria? Eu sorriria.  Eu teria resistido a qualquer batalha, se tivesse levado comigo uma coisa que me lembrasse: Horácio, você precisa voltar, a vida e a ilha são pérolas preciosas, volte com vida para o amor de Melinda.  Nas procelas, onde até o sorriso pra florescer precisava vencer um  cansaço absurdo, só de pensar no que eu tinha deixado a esperar por mim, eu sorriria?


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sábado, 12 de janeiro de 2013

8


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Costuma-se dizer por aqui, nesta cidade insular, que foi preciso voltarmos a tempos primitivos, de angústia, carência extrema e revolta, para reaprendermos a sobreviver, para voltarmos a perceber que num mundo verdadeiramente humano, a dita civilização, com sua burocracia e consumo sem alma, nada vale, nada garante.

É claro que a ilha se recuperou. Mas o  tempo, depois daquilo tudo, se somado não chega a muito.

Nasci já num estado de volta a essa organização com a qual os meus avós se acostumaram. Mas outros, mais perto de minha condição, continuaram a entender que o modo humano primitivo de sobreviver também possuía sua dignidade. Cresci entendendo que minha vida, minha sobrevivência e o meu mundo, dependiam da força dos meus braços para defender a minha vida; dependiam da minha capacidade de entender o perigo e; da minha consciência no momento em que a morte me seria o melhor caminho. Tanto a morte de meu corpo, quanto a minha capacidade de matar alguém. Num mundo assim, se um homem não for capaz de matar, ele não sobrevive.

“A gente vive e por isso outros morrem”.

Aprendi isso desde cedo, num tempo em que eu fui um quadrúpede.

Ora, meu caro leitor do futuro, não pense que falo poeticamente ou em parábolas. Fui um quadrúpede até o ponto de não suportar mais. Depois de adquirir a capacidade de andar sobre duas pernas, não pude me conter, eu careci de vinganças, eu cumpri esse doce ritual até o ponto em que minha alma se mostrou a mim limpa, lavada com sangue.

Se me faltava dizer o motivo para este relato, agora nada me falta. Esta é simplesmente a história de um quadrúpede que se transformou em um bípede.

Ainda sem poesia, mas carecendo de um pouco mais de recursos extravagantes, digo que vim do inferno. Nasci da mistura de porra e cuspe do próprio mal.

Mas não devo me perder nessa tentação que é por agora falar de mim.

Em passos lentos vou contando a minha história.

Em passos lentos enquanto o fim da vida, moribunda, não me vem.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

7


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Sempre vem a mim a imagem daquele menino. Ele era pequeno, magro e branco. Andava descalço, coberto por um manto verduri, cabelos longos comportados numa trança que lhe descia às costas.  Como todo verduri não usava cor alguma; o algodão de suas roupas era cru e aparentemente confortável. Parecia muito limpo, bem cuidado e sereno.

Era sabido que se tratava do filho mais novo do mestre Vasco, um artesão que trabalhava em madeira, e que tinha seu atelier muito bem recomendado na rua do Vigário, na frente da ilha, diante das últimas terras que eram terra.  Como todo verduri, o menino, que se chamava Horácio, tinha uma grande habilidade em transformar coisas da natureza em outras coisas. era como um mágico. Era também silencioso como deve ser um sábio; nada pronunciava que não fosse precioso, seu olhar era meigo e sorria sempre para os que lhe olhavam fundo nos olhos. Seu olhar era capaz de curar o coração mais triste. Desde seus doze anos, durante os festejos da primeira estação, entre os cânticos ederlezis, Horácio oferecia ao mar a criação na qual se dedicara por todo o inverno. Nada ele dizia... 

Muitos se aglomeravam nas ruas da frente a observá-lo deixar que o mar levasse suas oferendas.

O grande Deus num de seus mandamentos, pelo que diziam os velhos sacerdotes, disse aos homens da ilha; “Não deverás ultrapassar a vontade de vencer o mar, pois tudo o que há além da retina do horizonte te trará a dor no fim”.

As oferendas de Horácio cumpriam o desejo daquelas pessoas. Elas venciam o mandamento e ultrapassavam as neblinas. 

Certo dia me aproximei dele, já era um rapaz... ainda mantinha o olhar sincero da criança e o sorriso pronto para clarear-lhe a face. Nada ele me disse naquele instante. nada ele precisava dizer com verbos.  Horácio me fazia pensar no meu estado de prisão. Todos nós nessa ilha. Todos nós em desejos plenos de vencermos o mandamento; a neblina; o medo. todos nós, conformados em grilhões, buscando a sorte numa resignação possível.

Indaguei ao rapaz, numa das manhãs do festival, como se chamavam aquelas coisas que ele deixava que o mar levasse. Para o meu espanto, ele me tomou pelas mãos e me levou à gávea. Lá ele então me respondeu. “A isso que solto ao mar dou o nome de velejante. Veleiro. O vento o empurra, as águas o fazem flutuar. Leva nossas indagações e nossos sonhos. não há nada em um veleiro que não tenha vindo na natureza, do criador"

Um dia algum de nós poderá fazer parte de algo assim? Perguntei.

Mas para essa minha segunda pergunta não obtive resposta. Horácio estava atento ao horizonte. Eu não era nada comparado ao horizonte.

O desafiante de Deus, era assim que o chamavam.

Horácio foi o primeiro a deixar a terra que era terra. Dizem que se lançou ao mar furtivamente numa noite escura, já que se lançar ao mar era proibido pelos sacerdotes do velho culto. Outros dizem que se fez uma grande despedida numa manhã de mar cristalino, na qual a soltura de Horácio ao mar se tratava de um sacrifício. 

Dizem que pra quem pudesse compreender seus gestos naquela manhã, entenderia-o como o vencedor do mar; aquele que caminha sobre as águas e vai até o horizonte, além das brumas, levando os sonhos de todas as criaturas da ilha. Nos poemas que ficaram dessa façanha diz-se que Horácio saiu em busca do amor. 

"O amor está além das tempestades...
entra as águas do céu e da terra mora o amor em estado líquido".

Até hoje em dia, quando se avista ao longe o clarão de uma procela, faiscando por sobre as águas, acredita-se que o jovem sábio está lá, entre os relâmpagos, flutuando sobre as vagas, domando o terror do que é invencível. 

Dizem que é ele que acalma as águas para que flutuem tranquilos os novos velejantes.

“o amor está além  de todos os tumultos”...

Pela janela desta casa de cura, vejo um jasmineiro. Vejo também a praça do horto, onde ao centro há uma estátua. É um jovem sobre um barco. Ele está com as mãos abertas e olha para o céu, como quem recebe nas palmas das mãos as gotas da chuva. Além da estátua vejo o mar. Vejo também muitos veleiros e outros tipos de pequenos barcos. Horácio, um verduri, nos ensinou que a liberdade, a imensidão da liberdade, é a própria alma do criador. O criador habita em nós do mesmo modo que um velejante habita seu veleiro. 

Nos tempos de João N, o jovem do mar ainda não havia nascido. Era como se toda ilha fosse ocupada por criaturas tristes, fugitivas da luz. Amedrontadas diante de um horizonte desconhecido.

“Todos nós carregamos o nosso messias".

"todos nós somos o  casulo de um messias".

"somente uma vez na nossa vida, nasce em nós, o nosso messias".

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