sexta-feira, 1 de março de 2024

A PERFEIÇÃO E O IMPOSSÍVEL

"A perfeição é impossível? Vou te dizer um segredo: O impossível é a perfeição"


A música...

Em determinada medida é selvagem. Não baila comigo, nem conversa nos balcões de cafeterias. Fica se esgueirando como quem foge de um fantasma. Olhou-me e no semblante dela parecia me chamar de traidor. Música, coisa que abandonei por doze anos.


Mas talvez seja tudo por conta do modo novo que estou lhe tratando agora. Sim, eu deixei, permiti que os outros entrassem na casa. Tenho passado horas dos dias a reproduzir o que eles me motivam a fazer. Apesar de que antes eu não via sentido nenhum em me dedicar a obedecê-los, agora essa tarefa não me parece um delírio. Eu mito um papel onde há garranchos que me dizem como devo ou não soar.


A música agora é uma amante volúvel e imortal. Eu não a vejo ainda nos meus amigos da escola de música. Tudo o que até agora vejo neles é preocupação. A música nem mesmo ressoa ao fundode suas tentativas. Ela é um detalhe, um acessório, uma consequência, um movimento corporal árduamente ensaiado.


A professora segura a minha mão direita, como quem segura a mão de um lunático. Eu deveria ter avisado a ela que tenho problemas com contato físico? No instante em que isso ocorre, por conta da agressividade do gesto, da ação, a sutileza da música se esvai e por me tornar assustado e tenso, tudo perde o sentido, porque o gesto, apesar de talvez boas intenções, contenta-se na atmosfera dos gestos apenas, como um engodo que só aceitamos por ter a certeza que vai durar pouco. Sinto-me numa jaula e de repente passo a me preocupar com meu ritmo cardiaco e respiração.


Vi na profusão da quase crise a imagem projetada de um casal de amantes. Ah esses dois amantes: a Perfeição e o Impossível. Não se separam um só instante e por alguma razão me assustam, me intrigam e me fascinam,  principalmente porque o Impossível tem um semblante vago e desterrado, como uma pedra que atiramos num lago profundo e a perfeição não tem rosto e mesmo que a vigiemos de perto, nunca podemos ter certeza se ela está mesmo ali, onde supomos que ela esteja.





terça-feira, 8 de março de 2022

Se eu ouvisse uma música agora

Se eu pudesse ouvir aquela música agora, faria dela a minha casa, pois houve um tempo que ela soou embora eu não a tenha  ouvido, pois a mim pareciam ruídos que me travessavam como atravessam os serrotes a uma árvore centenária.


Tive essa fortuna em vida de conhecer a música em alguém. A fortuna de lhe ver, sentir, tocar, amar e ouvir premente e fisicamente na existência de alguém.


Quando é assim nada precisa ressoar porque a música é cósmica, silenciosa e infinita.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

omundo

há o mundo lá fora quando eu estou lá fora.

Sem mim, sem mundo. E cá estão ao meu redor todos mergulhados noutras línguas e cá estou sem mundo, porque aqui estou sem mim.


Devo ter deixado uma grande parte minha naquele largo, sentado em escadas de lioz. Naqueles dias em que as melodias brotavam sem que eu as quisesse colher ou sequer lhes dizer minhas. Não há apego a canções em um coração tranquilo. Só na saudade, na dor e no irremediável as canções são tão necessárias. Na felicidade os ouvidos ouvem o mundo, nada é colhido, o jardim é intocado.

há um mundo em mim quando estou em mim.


comigo, habita o mundo.