sexta-feira, 9 de novembro de 2012

299


.
.
.
.
.
 VERÍDICA OU QUASE


Eu poderia dizer: pobres criaturas, Marilyn Manson já fez isso, e nem é tão falso e ruim quanto isso. Toda essa busca pela ilógica, pela descombinação, pelo desconforto é patética. Eu preferia no entanto me fechar  numa guerra invencível e a frase constante dessa guerra ecoava: fomos criados a sentir medo. Tatuaram em nossas almas o limite.

Amedrontados e limitados pelo medo.

Nina cruzava o palco vez ou outra e seus olhos me buscavam do meio daquela gente. Ela trazia sempre um pano umedecido com água gelada e fazia com que minha febre passasse, pelo menos por algum tempo.

Passamos a dividir coisas. Ela ria de minhas vastas manias e era solidária à minha sede. Certa vez confessei estar perdido. Ela não veio com essa de me mostrar caminhos metafísicos, nem detalhou-me a cor de suas preferências ou as esquisitices de seus deuses. 

“Amo as mulheres”, eu disse, “tem algo sagrado nas mulheres”.

“Um dia esse ardume entre a carne e a pele vai passar”. É claro que vai passar. Vai virar riso, vergonha. “Tenho uma ideia, vamos beber no palafita. Vamos ficar bêbados, eu e você”. Não. Se somos só nós dois nessa grande noite, cada um fica inconsciente a seu tempo. Um de nós deve se manter sóbrio.

Seu pano frio foi tirando de mim a febre, aos poucos. Pouco me dei conta que seu milagre estava acontecendo. Ela me ajudava a sair de meu barco- sem- remo, fazia com que eu sentisse a areia. “Você é cheia de verdade”, eu disse. Nunca pensei que entre as sombras do teatro houvesse alguém tão cheio de verdade.

“Você consegue perceber o medo dessas criaturas?”

Ela disse que não. Eles foram tatuados por um demônio, sabia?

Lentamente construíram um muro lá dentro. Eles não conseguem sair; toda a paisagem que dizem enxergar está apenas pintada no muro. Chego a pensar que realmente a morte assim só pode levar a infernos.

A febre passava...
Esses pensamentos foram me deixando em paz.
Foram sumindo de dentro da caixa italiana.

Agora, o teatro está sendo reformado; é como uma velha que estica as peles para parecer mais nova. Fisicamente o que acontece é um resumo da cena que dura um quadriênio.

Fugir é sempre uma atitude de risco calculado. A derrota é que é uma merda! A derrota da fuga é que te fode o juízo! “Fugiste!” diz a voz dentro de ti.

A febre passou.

Parece-me que ela já sabia disso há muito tempo. Há muito tempo não me indaga a respeito. Então resolvi confessar a ela o que me incomodava: "Tenho a impressão que minha alma se dispersou por aqui. Meu ânima anima o urdimento. Agora entendo, mas não sei dizer direito. Quando eu souber te digo, ou nem digo. Nem sei se precisaria dizer".

Ela sorriu e depois falou num tom indagativo que sempre usa:

"E você acha que não está dizendo agora?"

.
.
.
.
. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

300



.
.
.
.
.
VERÍDICA OU QUASE

Tão alto...

Se uma porca cair lá de cima pode fazer um estrago bem grande. E quem seria o Zé Mané que levaria uma porca lá pra cima, Verdade, quem seria o Zé Mané. Teria que ser um Zé Mané bem forte. É mesmo, a escada é longa. Quantos metros de altura tem essa caixa. Quase uns vinte. Eu estava falando de uma porca de parafuso. Mas peraí, a porca não foi levada, ela estava lá e o Zé tropeçou nela. Vinte metros. Ah, se for porca de parafuso não tem graça e nem precisava ter falado. É, como aqui é um teatro o mérito maior seria uma porca mesmo, parida de preferência, com tetas inchadas de leite e tudo. Que horror! Uma porca profana. Porca Profana? Não seria uma vaca profana? Verdade, mas eu disse porca então é porca. Se uma porca caísse lá de cima faria um estrago... E porque estamos falando de porcas? É que um dia desses um alicate despencou lá de cima e por pouco não acertou a bonequinha ali. Que não tinha nada que estar no palco sabendo que tinha gente na grelha. Ninguém tinha me avisado. Bastava um pouco de sensibilidade pra saber que tinha gente lá. É tão alto que se uma porca de parafuso cair...

Vozes dizendo coisas sem sentido.
Vozes dentro de seus universos.

Escuridão. No começo tu ficas a intuir que nunca estás em tua casa. É como amar estar num cinema sem que nele esteja rolando nenhum filme, diante da tela branca, sem pipoca e sem os peitinhos de uma namoradinha casta. Com o passar dos dias o teatro vai se transformando em tua casa. Tua casa, o vácuo sideral torna-se tua casa, torna-se físico o teu subconsciente, é como se desse pra apalpar o subconsciente. Sem espetáculo o teatro é um sono sem sonho, mas a gente sabe, um bom sono mesmo sem sonho é bom. Um astronauta mil anos sem terra, é assim o navegante solitário do teatro. Um feto que brota no espaço e nem espernega nem chora, nem carece, no espaço não há espaço para esse medo de ficar sozinho no vazio. 

Fui aprendendo que o vazio é bom. Do mesmo modo que eu havia aprendido  essa mesma coisa depois que nasci, o vazio assusta no começo mas é bom; todos sabem que um feto pode sentir tudo, menos que está solto no vazio, ele se assusta, pois passa apertado pelas paredes da barriga da mãe por nove meses e depois é jogado nesse oco, onde seus braços ficam livres, dá medo. O teatro mesmo sem espetáculo, o palco deserto, as cadeiras isentas de plateia, também amedronta no início. Mas, que melhor lugar poderia existir para a mente sem limites, para a alma sem limites, para o tempo limitado entre o abrir e fechar do pano?

Ontem vi uma mulher nua se aquecendo...

Fazendo com a boca uns ruídos estranhos. Lá fora todo o resto do planeta. Entre uma coxia e outra, um universo imprevisível. Visível se assim for o desejo de quem domina a força e a direção da luz, ardente se ardente for o corpo de quem domina as forças da estática e do movimento. Ruidoso, se assim for a forma que encontrou o dominador dos sons. Pequeno ou amplo se assim deseja o dominador das coisas que podem ser tocadas, que delimitam o espaço onde corre o tempo do que se diz.

Eu?

Não. Pelo menos por agora não. Quando penso em dançar, meu amigo, não me faça dançar diante de ninguém! Mil toneladas de ferro me aprisionam à terra, uma armadura de aço envolve meu corpo.

Dançar? Ainda não meu amigo. Ainda não.

Ela estava nua ali, a atriz da alma imoral, sobre o assoalho escurecido por nogueira. Ainda cheguei a pensar no cheiro de sua vagina. Eu tinha a impressão de que atrizes tinham vaginas inodoras e bocas sem hálito. Eu ainda via um corpo do jeito que me ensinaram o que é um corpo. Eu ainda não via um corpo como mera massa sem forma.

E se um corpo caísse lá de cima?

Se um corpo caísse lá de cima? Ah, que grande desafio cenotécnico. Existe essa possibilidade de fazer que o corpo seja representado por uma outra coisa, uma porca prenha, uma porca sem parafuso, uma pena por exemplo. Uma grande pena de avestruz se precipitando lá do alto, transformada em centro do universo pela luz de um elipso, demorando cerca de vinte segundos para alcançar o chão, com um réquiem majestoso compondo a trilha... ora, vinte segundos no tempo teatral pode do lado de fora ser um tempo tão longo; pode até ser a eternidade. 

Sim, seria um grande desafio cenotécnico. Cair no teatro pode também ser belo se a queda for bem representada.

Teve momentos em que fiquei sozinho dentro da caixa escura.

Depois que resolvi me converter ao fosso, tornou-se comum que no palco eu me encontrasse por muito tempo. Porém, sozinho sozinho... eu fiquei poucas vezes. Mas eu não conseguia me manter concentrado quando ficava sozinho. Sei que lá eu poderia fazer qualquer coisa, até mesmo ficar nu, como a atriz da alma imoral. Mas era impossível de me concentrar. Os pecados dos mundanos sempre me chegavam com suas vozes insuportáveis. Uma frenagem de um ônibus, buzinas de homens apressados, o vozerio dos perdidos, minhas paixões por quem não merecia ser alvo de paixões... e eu me pegava pensando no Bodelé, meu cachorro que rápido mudava de comportamento; ia em segundos do seu latido antiladrão à cópula instintiva com a perna do ladrão.

Eu tinha a impressão que jamais conseguiria vencer a caixa italiana, pois ela precisava de mim do modo como eu não me entendia nem conhecia. Fiquei com essa impressão por um longo tempo, até que me surgiu a oportunidade de fazer o cenário do Mágico de Oz. Ora ora ora... a possibilidade de ser criador, o dominador do espaço. Preencher o escuro vazio cósmico do palco com formas encontradas por mim? Fantastisch!

Imagine um garimpeiro. Imagine o ouro bruto em pepitas que ele retira da terra. Imagine uma gargantilha feita com esse ouro envolvendo o pescoço da mulher que ele escolheu para fazer parte do seu sempre.
.
.
.
.
.

sábado, 3 de novembro de 2012

301

.
.
.
.
.
VERÍDICA OU QUASE




lembrar do momento mágico em que empurrei aquela porta de alumínio, com toda a permissividade de uma poesia necessária, é como lembrar de meu próprio nascimento em sentido inverso.

Minha vida estava seguindo uma direção contrária, levando-me ao começo, quando eu nem tinha nome, quando talvez eu já pertencesse sem saber àquele lugar escuro em estado de feto.

Eu sempre soube que conseguiria.  Retornar ao lugar de onde viemos. Voltar ao pó, ao Éden antigo, ao útero protetor da mãe. Essa sensação pueril, de que aquele lugar era pra onde o tempo me conduziu por toda minha vida, forçava-me a um riso que não se desfazia.

havia  uma pequena escada, que nos tempos decorrentes tornou-se o lugar onde costumávamos conversar. A escada da dialética, foi assim que a batizamos. Sentados nos degraus dela, ficávamos a discutir dos mais sérios aos mais bizarros assuntos. Ela era uma espécie de limbo divertido onde gargalhávamos, chorávamos, trocávamos injúrias e juras de amor num estágio último antes de entrar no palco.

Vencendo a escada da dialética, com seus degraus revestidos de mármore barato, bastava que abríssemos uma cortina cortaluzes, empurrássemos uma porta de vidro e lá estava ela,  a escuridão da caixa cênica. 

Era como se desde um único movimento do corpo, depois de alguns míseros passos, a realidade mundana passasse a nos ser apenas uma matéria prima, incompleta em formas lá fora, infinitamente mutante  e excessivamente inteira do lado de dentro.

Fiquei completamente tomado  por uma felicidade pueril. Falando como um religioso falaria, eu estava cheio de graça, sem a sarça e seu fogo, porém, ainda assim, diante de um deus que me transformava.

Um rapaz ficou ao meu lado, fingindo ser ranzinza. Usava óculos afeminados e um chapéu panamá, estava com as mãos sujas de graxa e parecia muito irritado. Tinha uma voz fina, estridente, apesar de ter em tamanho o porte largo e avantajado de um homem que por convenção teria que falar grave. Ele gesticulava, pedia-me cuidado, com sua voz de velha. Era antipático e ao mesmo tempo divertido. Parecia ter também nascido naquele lugar. era um irmão que não pude ter conhecido nessas curvas.

.
-Puxa vida... que coisa mais fantástica! – eu disse mais como quem fala sozinho, maravilhado com as dimensões do urdimento. Sei que o rapaz resmungou algo, não me importava, não lembro mais o que ele disse e talvez nem o quis ouvir. Não consigo lembrar nada além daquela escuridão viva e cósmica da caixa italiana, que me envolveu e me acolheu, como um pai que reencontra o filho pródigo.

Que bons momentos.


.
.
.
.
.