Vejo o mar de tempo em tempo
e entre cada tempo em tempo, o mar é o mesmo mar...
Encontrei a tua agulha escondida numa almofada sobre o petisqueiro da sala de estar
A linha atravessava o metal com a mesma cor da velha camisa, que usei na noite curta em que fui feliz.
é esse dizer Amo, que por agora dá a rotina a tudo que mesmo balbucio
como quem pousa o olhar sem descanso num aquário, ou numa parede azul
Nunca seria fria uma cor
se de mim, do fundo da mente, tua imagem surgisse como o maior desejo de morte em uma espera
e a agulha imantada com a cor de uma camisa distante me revela o meu dizer Amo
e busco, que incrível, por armários que de tão fechados já nem são de minha posse
hoje não deveria me deter na sede
e minha boca envolvendo um clímax, deveria ser o contorno de tua vagina
na menina dos olhos a inocência é uma tabuada distante da memória
e a diversão noturna é só uma velha busca por desesperadas distrações mundanas
Amo
por conta de selar aqui não um desdém com a vida
Amo
por conta de aqui saber que só na vida cabe o que é anseio
entre a fechadura e a chave
é o meu gesto de girar o pulso que desfaz a porta e a transforma em pedaços de uma parede
guardo no velho sofá da sala a agulha
perco, no velho sofá da sala
a agulha.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
PREFÁCIO DE QUALQUER COISA - 5
Eu vi um lobo. Ele se destacou entre os outros lobos e se tornou seu líder.
Acompanhei-os por centenas de dias. Não, eu não sou biólogo. Quando eu olho para essa janela, eu não vejo em mim um biólogo. Sou uma criatura livre, um pensamento livre. Mas os lobos estavam ali. Eu estava me escondendo deles. Se caso eu não fosse o melhor nisso, em me esconder, tornaria-me presa fácil. Pàssei milhares de dias ali... trinta anos humanos, eis a minha pena, trinta anos numa ilha repleta de lobos.
Mas é preciso que eu narre brevemente a passagem pelo mundo, deste lobo.
Veio de uma linhagem que se comportava de uma maneira mais amistosa com as presas. Essa linhagem possuía a capacidade de fazer amizade com elas, alguns instantes antes de abocanhá-las. Esse comportamento ao qual me refiro, foi o comportamento que a alcatéia teve, ao me assediar por trinta e sete dias, doze horas e vinte e três minutos. Conheci, os ancestrais desse lobo, para o qual dedicarei minha narrativa.
Conheci o início dele, antes, muito antes, dele.... se iniciar em ser lobo.
Era tranquilamente feroz. Para ilustrar poeticamente essa ferocidade, lembro que alguns pássaros pousavam muito perto de suas garras. Vi borboletas. Isso é sério. Vi borboletas. Borboletas pousarem em suas costas.
Abruptamente tinha um lampêjo:
devorava, surpreendentemente, umas quantas borboletas e uns quantos passarinhos. Mas os outros passarinhos e as outras borboletas que ficavam já não se assustavam, continuavam ali, tranquilas e fechando os sentidos todos, como se nada lhes tivesse acontecido.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
PREFÁCIO DE QUALQUER COISA - 4
Confusas, as ruas desenhadas, de início, eram para mim um terrível labirinto. para uma criatura que por trinta anos se submeteu ao exílio num espaço não maior que um confessionário, posso sem timidez compará-las a um universo muito maior que minhas capacidades de cruzá-lo. Elegi, para que minha vista se acostumasse às novas dimensões, uma janela que do alto de onde estava, mostrava boa parte das principais avenidas. escolhi aquele lugar como um refúgio na imensidão da casa vazia. Dali eu pouco saía. dali eu, entre o tempo e a espera por nada, criei mundos subterrâneos; construí novamente os alicerces que suportariam o peso de muitas novas crenças. Não, não posso nominá-las de novas crenças, mas posso dizer que tive que buscá-las novamente, e assim reencontradas, senti-me na obrigação de guardá-las como se fossem a velha agulha imantada que me direcionaria à novas buscas.
carruagens, fiacres, automóveis, aeroplanos, saltimbancos, homens elegantes sob cartolas, mulheres vestidas em malhas, luzes e imagens em movimento, homens das cavernas e criaturas supremas em si mesmas...
tudo dali eu via, não assustado, extasiado, escondido no meu lugar inalcançável, que só vez ou outra era ferido pela presença de Estácio, que silenciosamente trazia o que comer e o que beber.
O velho mordomo por algumas vezes se detinha ali, como quem reluta em não manter silenciosa alguma fala, alguma pergunta. mas em seguida respirava fundo e descia as escadarias.
no final das tardes eu ouvia um piano, invadindo os espaços entre mim, a casa, e .... a desventura da janela. as repetições de quem memorizava, o erro conivente com o meu desejo que me implorava para que aquilo terminasse. mas quando terminava, o vazio sonoro ainda continuava preenchido pelas tentativas. tentativas....
tentativas. que outra coisa poderia melhor impulsionar a vida?
noites caiam, dias renasciam e eu e a janela e a visão da cidade íamos a nos tornar algo novo, que espera seu tempo sem saber o que significa esperar.
a carruagem da rainha cortava o lusco fusco diligentemente, todos os dias. eu podia ver suas luvas brancas reveladas por acenos aos súditos que se aglomeravam e também gesticulavam em reverência. os sinos da velha catedral de meia em meia hora destrinchavam o tempo. com isso, algo com o qual eu já me desacostumara, percebi em mim novamente que o tempo passava...
indaguei-me por conta de que os homens precisam tanto assim de clepsidras.
se eu pudesse, ali mesmo, inventaria um modo imperativo de convencer todos a se perderem em segundos, como se estes fossem séculos.
a mim, os séculos diminuíram em tempo, e os segundos, ao inverso, eram moradas de planos infinitos.
carruagens, fiacres, automóveis, aeroplanos, saltimbancos, homens elegantes sob cartolas, mulheres vestidas em malhas, luzes e imagens em movimento, homens das cavernas e criaturas supremas em si mesmas...
tudo dali eu via, não assustado, extasiado, escondido no meu lugar inalcançável, que só vez ou outra era ferido pela presença de Estácio, que silenciosamente trazia o que comer e o que beber.
O velho mordomo por algumas vezes se detinha ali, como quem reluta em não manter silenciosa alguma fala, alguma pergunta. mas em seguida respirava fundo e descia as escadarias.
no final das tardes eu ouvia um piano, invadindo os espaços entre mim, a casa, e .... a desventura da janela. as repetições de quem memorizava, o erro conivente com o meu desejo que me implorava para que aquilo terminasse. mas quando terminava, o vazio sonoro ainda continuava preenchido pelas tentativas. tentativas....
tentativas. que outra coisa poderia melhor impulsionar a vida?
noites caiam, dias renasciam e eu e a janela e a visão da cidade íamos a nos tornar algo novo, que espera seu tempo sem saber o que significa esperar.
a carruagem da rainha cortava o lusco fusco diligentemente, todos os dias. eu podia ver suas luvas brancas reveladas por acenos aos súditos que se aglomeravam e também gesticulavam em reverência. os sinos da velha catedral de meia em meia hora destrinchavam o tempo. com isso, algo com o qual eu já me desacostumara, percebi em mim novamente que o tempo passava...
indaguei-me por conta de que os homens precisam tanto assim de clepsidras.
se eu pudesse, ali mesmo, inventaria um modo imperativo de convencer todos a se perderem em segundos, como se estes fossem séculos.
a mim, os séculos diminuíram em tempo, e os segundos, ao inverso, eram moradas de planos infinitos.
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