domingo, 7 de agosto de 2011

MEMÓRIAS DE SERAFIN

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“A loucura, portanto, se tornou a forma última, o grau final de Deus na imagem do homem”. (Michel Foucalt)



Ele venceu a morte com amor. venceu a morte com amor, dizia o hino que aprendi nas minhas idas à catedral num tempo de minha infância, um tempo muito distante. A mente infantil deste futuro palhaço ainda estava livre de pensar sobre o amor e a morte. Eu estava muito mais preocupado em descobrir o que é que o sacerdote fazia no exato momento em que minha mãe, a velha mulher, me obrigava a fechar os olhos. Um sino repicava no altar em tres momentos, e nesses tres momentos o meu pequenino coração disparava, como se eu pudesse ser sugado, num átmo, pelo próprio satanás, pois eu havia pecado em ter espiado pelas frestas do banheiro a filha da vizinha que nua tomava banho deliciosamente, de cuia. Era isso então, o sacerdote lutava no altar com o próprio cão do inferno, enquanto eu só teria que abaixar os olhos e acreditar que o filho de deus encarnava, para salvar um pobre merda como eu, a forma de um simples pão . O fumo do incenso com sua brancura exalava um cheiro que me transportava para eras muito ancestrais, que eu não conhecia, que era um oco disforme na minha cabeça, mas que me fazia bem e me convertia exatamente por isso, até mesmo que eu não quisesse ser convertido, a um povo e ao seu Deus.


Orgulhosamente a velha mulher me conduzia pelas mãos na fila que se formava para comer do pão. Os adultos me sorriam. Tanto eu gostava disso que me era fácil desejar me tornar um santo. E eu, simples e pequeno, ao redor de todas as minhas divagações infantis apenas a esperar o momento em que eu veria a cena do padre, com uma piscadela, a depositar sobre a língua dos súditos a hóstia. Meus olhos enxergavam os fios ainda de modo embaçado.



No mesmo instante esse hino, em mantra, era cantado por todos nós:



Ele ressucitou, aleluia

venceu a morte com amor

aleluia...



O teatro já me era o templo.

Todo templo, desde há muito, me é um teatro.

MEMÓRIAS DE SERAFIN


1


A loucura é a última casa antes do abismo. Seu nome? Vamos chamá-la de Teatro, pois ela foi assim em nome por alguns trechos das últimas narrativas. A minha cidade imaginária ideal era uma cidade de circos, visto que eu era... um palhaço, no sentido mais real do termo.

O abismo é como a morte. O desconhecido; lugar o qual em tudo o que é, é somente tudo o que supomos que tal lugar seja.

No teatro não se teme o abismo. A queda. Morte... Vive-se nele todos os caminhos. Foi nele, no no brande teatro feito para o criador de mundos, que descobri em mim o poder de ver os fios.

Libertemo-nos do medo do abismo. Não temer a morte é alcançar a liberdade em vida.

Libertar-se desse medo é libertar todas as nossas divindades criativas. A última casa antes do abismo não é o que nos ensinaram com tantos artifícios. Loucos não são os que nela habitam, loucos, se é que existem, devem estar tateando as paredes de alguma cidade escura, ainda se admirando mesmo na cegueira das possibilidades de ser belo aquilo que não podem, nem poderão nunca, de verdade, ver.

Mas olhem só... Poucos são os que ficam totalmente convencidos de que vivem uma verdade. Poucos são os que ficam convencidos de que a morte é um fim de vida e o resto é eterno. Nossa maior parte, lá no lugar onde ninguém nos ouve, não se acredita nessas coisas. Verdades absolutas são absolutas. Mas onde elas estão?

Mas cuidado, amigo. Não demonstre seu anima indagativo em público, longe das paredes côncavas da cena. As criaturas que temem o abismo... lhe temem, por não compreenderem o seu uso das capacidades de retirar os pés do chão, que todos possuem mas são exortados a desprezar. E elas vão saber da existência de suas asas, não importa o quanto você as esconda por debaixo dos tecidos de suas roupas.

Se, nas tentativas de alcançar locais onde um simples salto não seja suficiente você sofrer algum dano material, elas, vão apontar seus dedos e lhe dizer: Está na hora de ouvires o grande chamado.



Seja discreto com essas criaturas pequenas. Tenha bondade e paciência com elas. Tenha misericórdia.

E se tiver que dizer ou sentir algo que lhes possa levar ao lugar onde não existe o medo...


Sinta e diga isso na casa da loucura.
Diga isso nos seus ouvidos.
Diga isso num teatro.
Faça-se um teatro...
E domine os fios.

sábado, 6 de agosto de 2011